"O projeto de Cláudia Dias começa, neste primeiro ano e primeira peça, à maneira de uma partida de boxe, cada segundo bem medido, como se a bitola dada por este evento contivesse já a noção de poder mudar tudo, round a round, pergunta a pergunta. Cada irreversível evento no fluxo temporal espoleta mil outras possibilidades. O combate de boxe é entre nós e o tempo.”

 

 

Excerto do texto PARA MEMÓRIA FUTURA de JORGE LOURAÇO FIGUEIRA

 

 

 

SETE ANOS SETE PEÇAS é um projecto que se insere na área da criação e que, tal como o nome indica, implica a criação de sete peças em sete anos consecutivos, a ter início em 2015. Este projecto, como outros que desenvolvi anteriormente, nasce de uma inquietude muitas das vezes indizível ou inominável e que, após ser trazida para fora dessa interioridade inicial, ganha sentido numa frase ou numa palavra.

 

Neste caso, trata-se da palavra ENCONTRO mas, mais do que do seu significado, trata-se do que a palavra evoca, convoca e acciona. Para mim, a palavra 'encontro' acciona desde logo uma imagem: duas pessoas paradas de frente uma para outra e a possibilidade de irem ao encontro de ou irem de encontro a. Dois corpos e uma distância entre si para ser articulada, percorrida, vivida, mantida, abolida ou amplificada.

 

Esta é a IMAGEM que escolho como ponto de partida para todas as sete criações e que, materializada em palco, constitui o início de todas as peças.  Considero que esta é uma boa imagem detonadora pois contem temporalidade, suspensão, e encerra em si mesma a potência do encontro. Por outro lado, começar todas as sete criações da mesma forma, com a materialização da mesma imagem, sublinha que todas elas serão objectos diferentes.

 

Não se trata de criar peças sobre a ideia de encontro, o que se traduziria na mera estetização do mesmo em sete versões diferentes, mas encontrar-me com outros artistas para criarmos juntos. Este projecto trata assim do encontro enquanto ferramenta de criação.

 

Este início que se repete através da mesma imagem sublinha também a disponibilidade para deixar tudo em aberto, assumindo que apenas sabemos o ponto de partida mas não o ponto de chegada, nem tão pouco o percurso a percorrer. Posiciono assim o acto de criação ao nível da “página em branco”, recusando o determinismo da certeza e do controlo. Não pretendo criar sete peças para confirmar o que já sei. Pretendo descobrir com e através do outro.

 

E quem são os outros neste projecto?

 

São sete artistas disponíveis para navegar nesse mar de ignotos e para, se for o caso, viver o encontro em dissenso. Ou seja, pessoas capazes de viver colectivamente em desacordo. Neste projecto pretende-se ir para além do “estamos de acordo” ou do “estamos de acordo que discordamos”.

Mas qual a pertinência em criar um projecto em torno da ideia de encontro, no contexto das artes performativas, na próxima década?

 

Por um lado, é um gesto desafiador para com a realidade social, cultural, política e económica que estamos a viver. Parece-me um desafio interessante ir contra-corrente e desenhar um projecto a longo prazo, que contrarie a ideia de ausência de futuro ou de futuro precário, desenhado com custo ano a ano.

 

Por outro lado, activa o compromisso entre os artistas e entre os artistas e as estruturas produtoras e co-produtoras, tendo em conta o arco temporal que envolve. E esse gesto de aprofundamento de relações não-utilitárias também me parece fundamental ser activado, sobretudo no contexto das artes performativas, cada vez mais marcado pela intermitência, pela lógica de trabalho por projecto e circulação voraz de pessoas.

 

Também me parece pertinente, num tempo em que a palavra inevitabilidade se pegou à nossa pele, afirmar e imprimir os moldes em que queremos desenvolver o nosso trabalho, recusando estar sempre sujeitos ao que nos é imposto como inevitável.

 

Por último, a promoção da investigação artística sustentada em valores como a continuidade, a confiança e a partilha de processos parece-me imprescindível à produção de conhecimento, contrariando também a tendência actual para colocar o enfâse apenas na circulação de informação.

 

 

 

Cláudia Dias

 

 

 

“Sete anos de artista servirá Cláudia Dias, ao fim dos quais terão passado diante dos nossos olhos sete encontros com o futuro, sete peças sobre, lá está, o tempo que passa, o tempo que terá passado, o que há-de vir. Onde estarão os nossos corpos daqui a um, dois, sete anos, de cada vez que houver um embate? Como estarão os nossos humores, hoje tão linfáticos? Como encaixaremos os golpes? A pele terá ainda aquelas mesmas marcas que hoje vi ao espelho, de manhã, durante a leve insónia? Cada encontro será feito para memória futura, na esperança de acordarmos e ainda estarmos vivos.”

 

 

Excerto do texto PARA MEMÓRIA FUTURA de JORGE LOURAÇO FIGUEIRA