Cláudia Dias convida Pablo Fidalgo Lareo

SEGUNDA-FEIRA

ATENÇÃO À DIREITA!

 Próximas apresentações da peça Segunda-Feira:

2, 3 mar 2018 /// Tanzquartier Wien - Centre for contemporary dance and performance, Viena AT

imprensa | segunda-feira: atenção à direita!

 

FICHA TÉCNICA

Conceito e Direção Artística: Cláudia Dias

Artista Convidado: Pablo Fidalgo Lareo

Texto: Cláudia Dias e Pablo Fidalgo Lareo

Intérpretes: Cláudia Dias, Jaime Neves, Pablo Fidalgo Lareo/Karas

Acompanhamento Crítico Sete Anos Sete Peças: Jorge Louraço Figueira

Treinador de Boxe Tailandês: Jaime Neves

Cenografia e desenho de luz: Thomas Walgrave

Direção Técnica: Nuno Borda De Água

Produção executiva: Alkantara

Co-Produção: Alkantara Festival, Maria Matos Teatro Municipal, Teatro Municipal do Porto .Rivoli.Campo Alegre, Câmara Municipal de Almada, Noorderzon Performing Arts Festival Groningen

Residências artísticas: Espaço Alkantara; Göteborg Dance and Theatre Festival e Vitlycke Centre for Performing Arts, com o apoio de KID Gothenburg; Teatro Extremo e Teatro - Estúdio António Assunção; Companhia de Dança de Almada; O Espaço do Tempo; Teatro Municipal do Porto .Rivoli.Campo Alegre

 

Apoiado por:

EUROPOLY é um projeto Europeu para teatro e cinema do Goethe Institut em cooperação com Munchner Kammerspiele, Onassis Cultural-Centre Athens, Sirenos – Vilnius International Theatre Festival, Maria Matos Teatro Municipal Lisbon e Tiger Dublin Fringe.

 

NXTSTP/Programa Cultura da União Europeia

 

O Projecto Sete Anos Sete Peças tem o apoio da Câmara

Municipal de Almada. 

 

Alkantara – A.C. é uma estrutura financiada por Ministério da Cultura / Direção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Lisboa 

SEGUNDA-FEIRA

Sessão de Treino Almada

 

OK, PÕE-ME KO

Jorge Louraço Figueira

 

Quando levamos um soco, pelo menos acontece qualquer coisa. Com alguma sorte, se dermos por ela, temos noção que está a acontecer. É um primeiro passo, quando nos esmurram a cara, saber algo. Mas bom mesmo é saber quem, como, para quê, o que foi.

 

Num mundo de agressão mais ou menos dissimulada, em casa e no trabalho, e mais ou menos simulada, no ócio e no lazer, é de esperar que mais cedo ou mais tarde alguém nos dê esse soco. Nem que seja metafórico. O que surpreende é que tanta gente apanhe sem saber porquê.

 

Antes de deixar, por inadvertência, que alguém nos esmurre a cara, é bom ter presente as consequências do ato. Não saber quais são a motivação e a finalidade desse mesmo ato é, por mais que o murro nos acerte em cheio, passar ao lado dos acontecimentos. Sem entendimento, o facto é-nos alheio. Eis como um conflito pode chegar a não ser, mesmo depois de ter acontecido. Que é o agora? Comparado com o antes e o depois, nada. Antes e depois do impacto, avaliemos o ato. A partir disto, construamos o edifício do próprio tempo, a história, e a nossa memória do futuro.

 

Não ter medo. Não ter medo de tudo. Não deixar o medo ter tudo. Não edificar sobre ele o portugal futuro.

 

 

 

Arenas pessoais

 

O primeiro espectáculo do ciclo de sete peças que Cláudia Dias se propôs fazer ao longo dos próximos sete anos, com sete parceiros escolhidos a dedo, é, como serão os outros, feito a quatro mãos. Porém, nesta primeira vez, com Pablo Fidalgo, o sentido é literal: são as próprias mãos deles, mesmo, em carne e osso, que vemos postas em palco. Cláudia e Jaime propõem-se reconstituir um combate de boxe, punhos cerrados, um contra o outro. Boxe, full contact ou vale-tudo-menos-tirar-olhos, uma coisa parece certa, a julgar pela amostra dos ensaios e treinos: vão dar e levar na boca — não há que ter medo das palavras — literal e metaforicamente.

 

Erga-se um pouco a metáfora do tapete. O combate tem vários blocos de mais ou menos trinta perguntas sobre distância e proximidade, ou sobre cumplicidade, intimidade, diferença, ou ainda sobre porque são as coisas como elas são, e nós com elas, e isto em, fazendo as contas, mais de duzentas perguntas, jogadas ao vivo e em direto, cada pergunta, cada golpe, gancho ou uppercut — palavras que nomeiam partes do combate — e que nos podem pôr KO. OK.

 

A matéria destas perguntas começa por ser o medo dos outros, e, por essa via, o medo e o desejo do futuro, visto até nas pequenas coisas que nos foram domesticando, desde os pontos-sem-retorno da adolescência até à grande entrada na idade adulta (com as promessas de emancipação e tudo). A questão parece ser sempre a mesma: como falar com os outros? (Se é que queremos falar de todo.) Como ficar perto dos outros? Em que língua (na dos outros)? Que intimidade, que família, que comunidade é esta? A europeia? Só se for alegoricamente. Mas daí vai um passo até repensarmos qual é a nossa capacidade para fazer uma revolução, mesmo que seja alegórica, com os seus atos irreversíveis: a morte dos outros ou a nossa própria.

 

O espectáculo ainda não está pronto, mas uma coisa parece certa: será ao mesmo tempo muito direto e pessoal e muito metafórico e político. Os temas vão-se dispondo — suscitados pelas perguntas — ao longo dos vários rounds da peça, até que fique exposto o limite da linguagem. Chega-se a um ponto em que as palavras deixam de dar conta do que acontece. A separação entre cabeça e corpo, razão e emoção, pensamento e ato, que limita as nossas práticas, torna-se o próprio assunto e forma do espectáculo. Por isso é tão precisa a expressão “levar na boca”. Afinal, é pela boca que se efectiva a maior parte da linguagem em cena. E por isso este espectáculo se constitui numa espécie de alegoria da Europa possível, construída em cima das metáforas mínimas das mãos e das bocas, ainda que sejam apresentadas, de modo literal, pelas mesmas mãos e bocas.

 

A matéria do espectáculo é afinal a mesma do dia-a-dia dos europeus, e revela a contradição irresolúvel que é ser habitante da Europa hoje: o discurso diz uma coisa e a prática diz outra. Ou ainda: o discurso faz uma coisa e a prática faz outra. Quem domina os nossos corpos, quem é senhor deles? Quem nos coloniza e a quem colonizamos nós? Qual é a estratégia dos mais fracos perante os mais fortes? O que sabemos? O que precisamos de saber para agir? Agir contra quem? Quem é o verdadeiro inimigo? O vizinho? O estranho? O amigo do inimigo? Somos nós, cada um de nós? Quando entramos no ringue? Quando é a nossa vez?

 

Cláudia e Jaime vão levar na boca, literal e metaforicamente, sim, senhor. Os dois pertencem a uma comunidade que tem sido levada ao tapete vezes sem conta, uma geração derrotada, um país prostrado, um Estado falido, uma união falhada, uma península arrasada, um continente perdido. Adjectivos não faltam. Quando se esmurrarem com argumentos, entre os prometidos sangue, suor e lágrimas, far-se-á luz, como nas fábulas esclarecidas. Ao sentimento de opressão, de que se libertam combatendo, opor-se-á o sentimento de solidariedade, entre pares, que se reforça no combate, quando eles se reconhecerem como iguais. Punhos cerrados. Destas forças contrárias, sai atrito bastante para passar das palavras aos atos.

 

 

 

Ringues europeus

 

É o embate do século, tido na boca do Tejo, para gáudio da Europa. São doze rounds de perguntas e questões que ficam por responder — ou talvez não, se admitirmos que o espectador as resolve. É o tira-teimas sobre onde estamos e para onde vamos. Olhando para a força de braços de Pablo e o movimento de pés de Cláudia, as certezas sobre quem vai ganhar são poucas. Quanto vale a aposta? O mais provável é sair um empate, como uma partida de xadrez de Beckett, e não tanto um mano-a-mano brechtiano. Querem apostar?

 

A primeira versão do duelo entre Pablo e Cláudia foi ensaiada perante uma assistência em suspenso, Maio passado, numa arena de boxe improvisada no Espaço Alkantara. A cada ronda de perguntas entre Pablo e Cláudia sucedia-se um round entre dois boxeurs de origem africana, negros como nos filmes. O confronto entre europas estava ali, em carne e osso, não só entre brancos e pretos, ricos e pobres, homens e mulheres, intelectuais e operários, portugueses e espanhóis, mas sobretudo entre espírito e matéria, a falsa oposição que é preciso resolver. Quando passaremos a falar no plural, de nós? O que é que ele quer? O que é que tu queres? O que é que nós queremos? A quem nos opomos? Quem é o outro? As invectivas dos dois criadores não cairão em saco roto, porque vêm de um lugar pleno de esperança sobre cada um dos minutos que hão-de vir. (Em sete anos, são milhões.)

 

O espectáculo é só linguagem, certo, mas ainda assim feito da matéria-prima (e força de trabalho) que são os perfomers, dirigindo-se a uma plateia sempre imprevisível, por muito preparada que esteja. A peça não se resume aos temas e fontes que a inspiram. Os elementos que compõem a obra — talvez fosse melhor dizer experiência, em vez de obra — também não a esgotam. É a estrutura do acontecimento, preparado para se dar ao vivo, que importa. Parte dela, os autores em cena, refazem as formas de encontro entre os dois através das interrogações patentes e das afirmações latentes, no texto e nos corpos. Pablo e Cláudia são dois espíritos — devo dizer matérias? — singulares. O confronto dos dois gera inúmeras possibilidades de aliança. Esse gesto de combate, comum a ambos, constitui prova, causa e efeito, de um impasse coletivo prestes a desfazer-se. É essa a potência dos combates do século.