O TEMPO DAS CEREJAS

Direção artística Cláudia Dias 
Artista convidado Igor Gandra 
Texto, interpretação, cenário e marionetas Cláudia Dias e Igor Gandra 
Realização plástica Eduardo Mendes 
Oficina de construção Igor Gandra, Cláudia Dias, Karas, Eduardo Mendes, Daniela Gomes e Nádia Soares
Desenho de luz e Direção técnica Nuno Borda de Água 
Acompanhamento crítico Jorge Louraço Figueira 
Assistência dramatúrgica e técnica Karas

Apoio Teatro de Ferro 
Residências artísticas O Espaço do Tempo (artista associada), TMP/Teatro Campo Alegre, Teatro de Ferro, Companhia de Dança de Almada, Centro de Experimentação Artística do Vale da Amoreira 
Coprodução Teatro Maria Matos, Teatro Municipal do Porto, Centro Cultural Vila Flor

Produção Alkantara


O Projeto Sete Anos Sete Peças tem o apoio da Câmara Municipal de Almada 


Alkantara é uma estrutura financiada por República Portuguesa Cultura | DGArtes - Direção-Geral das Artes

Queridos, destruí a casa 

 

Um buraco no meio do palco. O que é? O que representa? O cenário é um enorme buraco no meio de uma data de placas de gesso laminado, como se uma bola de ferro gigante tivesse caído da teia e aberto uma cratera num chão de pladur. Ou como se um míssil Tomahawk tivesse rebentado aqui. Os Tomahawks fazem crateras com o diâmetro desta. O número foi adotado para este espetáculo como substituto da proporção áurea. Dentro da cratera, dois sobreviventes. Quarta-feira começa onde Terça-feira acabou: debaixo do chão, aprofundado o tema da "destruição criativa".

Há bombardeamentos memoráveis. Em junho de 1939, uma bomba do IRA explodiu na Câmara dos Horrores do museu de cera Madame Tussaud, sem causar vítimas a não ser entre os bonecos: o rei Henrique VIII ficou feito em pedaços. Intocadas ficaram as figuras da Revolução Francesa que fizeram a fama das peças de Tussaud logo no início do Séc. XIX: as cabeças do rei Luís XVI e de Maria Antonieta, bem como de outros aristocratas mortos na guilhotina, e dos revolucionários, caídos em desgraça, Marat e Robespierre. A escultora, detida em 1789 com outros membros da corte francesa, tinha ficado encarregue de moldar as máscaras mortuárias dos executados. Quando a revolução acabou, aproveitou os moldes para fazer as cabeças de cera, e partiu em digressão, até se fixar em Londres. As cabeças eram expostas numa sala à parte, onde se pagava mais para entrar. A luta de classes continua sempre, ainda que por outros meios. 

Desde a cabeça de Luís XVI até aos nossos dias, muitas cabeças rolaram no museu. Em 1940, uma bomba alemã destruiria mais de 350 moldes. Em 1974, uma outra bomba do IRA obrigou à evacuação do edifício. Os ataques do IRA, anunciados antes das bombas explodirem, tinham como alvo os espaços públicos, para causar terror. No caso do museu de cera, o ataque ganhou um valor simbólico, equivalente ao valor de queimar bandeiras ou efígies de tiranos, em sinal de protesto. Além disso, a explosão da Câmara dos Horrores figura a destruição da destruição, ou melhor, da versão oficial da destruição, com os papéis de bom e de mau distribuídos desde o início da história. Mas faltam na Câmara dos Horrores de Madame Tussaud as vítimas anónimas dos horrores do Séc. XXI, mais ou menos visíveis nos noticiários, horrores que poucos parecem querer que terminem. O trabalho de Cláudia Dias e Igor Gandra neste espetáculo faz-nos ver melhor as cenas reais que nem todas as câmaras captam e faz-nos pensar duas vezes sobre quem são os maus e os bons da fita. Também tem bonecos em cena, no caso marionetas, para ajudar à luta.

Este cenário não é só uma referência a bombardeamentos estrangeiros, mas também. Portugal teve um boom de construção nos anos 80 e 90. Enquanto eram construídos, os prédios foram lugar de aventuras clandestinas. Quem nunca brincou numa casa em construção, quando paravam as obras, depois da escola ou ao fim-de-semana, que atire a primeira pedra. Antes de serem casas, os edifícios, de todos os tamanhos, só tijolo e cimento ainda, eram já ruínas, com o poço do elevador vazio e lances de escadas sem parede. Havia pistas da presença de outros, desde preservativos a seringas e papel de prata que sinalizavam explosões alheias. As ruínas de prédios bombardeados na TV ressoam, ironicamente, nas memórias desse recreio informal. A fossa por onde uma dúzia de crianças projetou Gisberta também. A inocência só existe aos olhos dos inocentes. 

Cláudia Dias e Igor Gandra entram neste espaço tendo como ponto de partida os próprios corpos, que em dada ocasião se desdobrarão em marionetas. Começam por explorar os movimentos de construção e de destruição à escala natural, e depois mudam para a escala das suas efígies. Miniaturizam a sua figura, mas aumentam o tamanho do espaço, relativamente aos bonecos. Depois de desenharem um esquema dinâmico, lançam-se na aventura da composição do espetáculo, passo a passo, pedaço a pedaço, gesto após gesto, articulando corpo humano e corpo de marioneta, espaço doméstico, espaço urbano, espaço internacional, território conflagrado.

Ao construir o espaço cénico da explosão com o mesmo material de construção usado em milhares de casas portuguesas, para logo de seguida começar a desconstruir, Cláudia Dias e Igor Gandra fazem uma ligação direta a tudo o que é varrido para baixo do tapete ocidental. Apesar de os bombardeamentos aéreos por parte de forças militares europeias serem hoje em dia facilmente visionáveis na internet ou na TV, a ligação entre os nossos lares, de soalhos alcatifados, e as crateras, abertas por mísseis noutro lado do mundo, não é tão visível assim. Este buraco negro no meio do Teatro Maria Matos alude diretamente a essa relação causal por esclarecer. 

Não se trata apenas de mostrar a responsabilidade das sociais-democracias europeias nos massacres que estão a ocorrer agora no resto do mundo. O olho negro no meio do chão é uma imagem de sinal negativo que nos revela o que está por fazer.

Somos como um museu de cera, impávido e sereno, perante as atrocidades cometidas em nosso nome no médio oriente, noutros continentes, no resto do mundo existente – mas também perante a exploração do próximo, a desigualdade, a censura e a descriminação na Europa e no nosso próprio país. As marionetas sobrevivem a tudo. Sobreviveremos nós também? Só depois de conhecermos bem o impacto de cada um dos nossos gestos.

Jorge Louraço Figueira

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© Bruno Simão