Cláudia Dias convida Luca Bellezze

TERÇA-FEIRA

TUDO O QUE É SÓLIDO DISSOLVE-SE NO AR

Próximas apresentações da peça Terça-feira:

24 jul 2018 /// STUDIO Teatrgaleria, Varsóvia, Polónia 

31 ago, 1-2 set 2018 /// Noorderzon Performing Arts Festival, Groeningen, Holanda

Apresentações Anteriores: 

14-16 mar - Dance Fabrik / Brest, FR       

Cláudia Dias e José Goulão | 2017

FICHA TÉCNICA

Conceito e direcção artística: Cláudia Dias
Artista convidado: Luca Bellezze

Texto: Cláudia Dias
Intérpretes: Cláudia Dias e Luca Bellezze
Olhar Crítico – Sete Anos Sete Peças: Jorge Louraço Figueira
Cenografia e desenho de luz: Thomas Walgrave

Assistência: Karas
Animação: Bruno Canas
Direção técnica: Nuno Borda De Água
Produção: Alkantara
Coprodução:  Maria Matos Teatro Municipal; Teatro Municipal do Porto
Residências Artísticas: Teatro Municipal do Porto/Teatro do Campo Alegre; O Espaço do Tempo; Centro Cultural Juvenil de Santo Amaro – Casa Amarela
Agradecimentos: Ângelo Alves, Anselmo Dias, Ilda Figueiredo, José Goulão, Jorge Cadima, Paulo Costa
O projeto SETE ANOS SETE PEÇAS é apoiado pela Câmara Municipal de Almada

Alkantara – A.C. é uma estrutura financiada por: República Portuguesa | Cultura/Direcção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Lisboa

TERÇA-FEIRA – CLÁUDIA DIAS

 

Quando era criança assistia fascinada, como muitas pessoas da minha geração, aos programas televisivos do Vasco Granja e ficava deliciada com aqueles desenhos animados que criavam mundos a partir de plasticina, cartolina ou de uma só linha. Cerca de trinta e tal anos depois convoco esse universo, nomeadamente o trabalho de Osvaldo Cavandoli, para esta segunda criação do projeto Sete Anos Sete Peças.

 

Tendo em conta que uma linha recta é a menor linha que se pode traçar entre dois pontos, este é o ponto de partida escolhido por mim e pelo Luca Bellezze para a criação de uma espécie de cartoon ao vivo urdido a partir de um fio. Numa lógica de frame a frame vai sendo construída uma narrativa visual e sonora que retrata, de forma sintetizada, aspectos particulares da realidade contemporânea.

 

Num tempo em que as linhas divisórias, as fronteiras, as barreiras, as linhas da frente e de mira dos conflitos bélicos, as fileiras e as linhas de identificação do drama dos refugiados, as linhas de respeito dos limites marítimos das nações, as linhas duras das fações radicais de organizações políticas e religiosas estão na ordem do dia, pretendemos trabalhar (n)uma linha unificadora, capaz de juntar o que se encontra separado.

CITAÇÕES

Jorge Louraço Figueira

 

1. Siga atentamente as linhas e os traços destas letras no papel, antes de se transformarem em palavras. Tento fazer o mesmo. Se fizermos isso os dois, teremos tempo para uma troca de ideias, mesmo antes de começar o texto.

 

O subtítulo desta peça é uma citação do Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels, em 1848. A frase original está num parágrafo sobre o modo como o capitalismo destrói o que for preciso para perpetuar os lucros. Na tradução de José Barata Moura:

 

Tudo o que era dos estados e estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessagrado, e os homens são por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações recíprocas.

 

A peça de Cláudia Dias alude a essa destruição, que alguns têm por criativa: a destruição de postos de trabalho, a destruição de casas, a destruição de vidas, a destruição do planeta. A vantagem é podermos ver os fios que nos unem.

 

Cláudia e Luca construíram uma narrativa visual, usando uma linha para contar a história de um menino de dez anos, cujos avôs foram expulsos primeiro da Palestina e depois do Líbano, que viaja desde a Síria até Itália. Em paralelo, criaram também uma narrativa sonora, com ruídos e barulhos deste caminho de fuga. Tudo isto, a que se acrescentam os corpos de ambos, é não-verbal, precisamente para escapar às ideias feitas. E o texto, em vez de ser posto na boca dos atores, para que se identifiquem falsamente com os refugiados, é projetado no cenário, para sublinhar a distância que separa uns dos outros.

 

No centenário da revolução russa, citar Marx e Engels devia ser corriqueiro. No teatro onde estreia esta peça — o Maria Matos, em Lisboa — decorre um ciclo programático sobre a utopia, que abarca a celebração dos 500 anos do livro de Thomas More e a comemoração da revolução de 1917. Parece o lugar mais apropriado. Como vem no manifesto, “já́ é tempo de os comunistas (...) contraporem à lenda do espectro do comunismo um manifesto do próprio partido.”

 

Então porque soa tão estranho — quase uma provocação — usar uma citação destas num espetáculo de dança? É muito melhor citar Marx e Engels do que citar, digamos, Lúcia, Jacinta e Francisco. Porém, aposto que é mais fácil citar, num espetáculo, com ou sem ironia, os três pastorinhos, que também fazem cem anos, do que Lenine, Trotsky e Estaline. Esta citação do subtítulo é mais de agit-prop do que de dança-teatro.

 

No seu estudo sobre o teatro épico no Brasil durante os anos imediatamente antes e depois do golpe de 1964, Iná Camargo Costa recapitula, sublinhando a respetiva relevância artística, cultural e política, a derrota dos movimentos de agit-prop na Rússia, na Alemanha, na França, no Reino Unido e nos EUA, às mãos tanto de estalinistas quanto de fascistas. O alcance realmente democrático daquela forma teatral era mais do que as elites e burocracias podiam tolerar. Hoje, o dito teatro político é consagrado em festivais internacionais e os recursos formais do agit-prop e do teatro épico usados pelos grupos e artistas mais conceituados.

 

Já o carácter popular desse teatro e a sua articulação com movimentos políticos não são tão claros. Talvez a maior dificuldade, hoje, para um artista, como a Cláudia Dias, que queira mudar as condições do discurso seja não o totalitarismo, mas a normalização das formas artísticas que ocorre nas presentes democracias, com os espetáculos funcionando como montra do comentário cultural, sem entrarem em contradição com a moda, a média e a mediana da ideologia vigente. A mesma Iná, citando Walter Benjamin, alerta para o risco de a luta política se tornar mais uma mercadoria, objeto de prazer em vez de vontade de decisão. Nesta montra, talvez a citação do Manifesto se engula melhor se passar como a coca-cola do slogan de Fernando Pessoa (primeiro estranha-se, depois entranha-se), tal qual um bem de consumo. Pensando bem... talvez a frase “tudo o que é sólido dissolve-se no ar”, fora de contexto, possa ser adotado como sigla, tornando num lema o que era uma crítica. Não foi isso o que aconteceu com a expressão “indústria cultural”, cunhada com sentido crítico, mas generalizada como oportunidade empresarial?

 

As palavras contam, embora nem sempre como contamos. Cláudia e Luca usam fios como material de trabalho para desenhar o que veem e assim tornar visível o liame que nos une, uns aos outros, ainda antes das palavras se formarem. É nesse lugar para cá das palavras que estão as coisas.

 

 

2. Siga distraidamente as palavras no papel, até que as letras se transformem em traços e linhas. Talvez haja espaço para ler outra coisa.

 

No Maria Matos, no início deste ano, no âmbito do tal ciclo da utopia, Alexei Yurchak, antropólogo, encerrou uma conferência, notável, sobre o fim da União Soviética, com a seguinte frase projetada na parede:

 

Soviet socialism provided a stunning example of how a dynamic, strong, monolithic social system can quite suddenly and unexpectedly implode when the discursive conditions of its own existence are changed.

 

A primeira pergunta que fizeram a Yurchak não foi diretamente sobre o fim da União Soviética, mas sobre se haveria alguma semelhança entre a mudança das condições do discurso ocorrida então e o atual momento do capitalismo mundial. Que esfera pública — a leitora pode escolher outro sólido geométrico se preferir facetar a metáfora — existe hoje? Que campos de debate se estão a formar nos últimos anos, desde a explosão da internet? Quem está fora e quem está dentro da bolha?

 

Não escrevo de dentro da revolução, nem da ditadura, nem da guerra. Não estou antes da Glasnost, nem depois do PREC, nem durante a Guerra Civil Espanhola. Escrevo de dentro de uma dita democracia. É nesse lugar que este espetáculo se procura encontrar.

 

Dentro das democracias ocidentais, o apoio à austeridade, em favor do sistema financeiro, por parte dos partidos de direita-direita, direita, centro-direita, centro, centro-esquerda, e esquerda, abriu as portadas a todo o tipo de práticas segregacionistas. Só a esquerda-esquerda se opôs. Em todo o mundo, a desigualdade, a discriminação e as guerras civis afugentam diariamente milhares de pessoas. Qual é o tema deste espetáculo? No início deste século, refugiados vindos de terras que os europeus tinham colonizado até há muito pouco tempo e ainda subjugam indiretamente, são impedidos de entrar nas antigas metrópoles. O oprimido foge do opressor para morrer na fuga. Há bem mais de cem anos que esta história se repete, e nós perdemos o fio condutor. Cláudia e Luca tentam delinear essa história, encontrando caminhos para fora do labirinto da história.

 

Se cada um de nós enviasse à Cláudia e ao Luca um email cada vez que topa com uma notícia sobre o tema que eles elegeram para este espetáculo, não só a caixa de correio eletrónica estaria cheia há muito, como, de dia para dia, a monstruosidade daquela destruição ficaria mais evidente. Na data em escrevo, por exemplo, uns meses antes de vocês me estarem a ler, a Hungria declarou que iria prender todos os imigrantes recém-chegados, para impedir que eles fossem para outros países da Europa. Não quero pensar em que estado estaremos quando chegar o fim de fevereiro e, depois, o fim de março, e assim sucessivamente. Talvez devêssemos reenviar cada email a cada um de nós e, puxando o fio à meada, procurar a origem dos factos, retrocedendo passo a passo pelos caminhos onde foram deixadas pegadas de refugiados políticos, económicos ou ambientais, até encontrar o desastre climático, a fome ou a guerra, e, na origem destes infernos, os pecados mortais cometidos a sul e a oriente da Europa por homens, europeus, brancos — quase todos, mas não só.

 

Isto anda tudo ligado? Se for verdade que, graças aos meios de transporte e comunicação, estamos — todas as pessoas — mais ligadas que nunca, dar a ver essas ligações, usando fios como material de trabalho, talvez seja o melhor passo a dar. Mas como dar conta de tudo, num espetáculo de dança, sem que o trabalho se confunda com o discurso oco de uma eventual candidata a Miss Mundo, que estudou o soundbite à exaustão, por questão de sobrevivência, para poder dizê-lo sem mácula à frente dos cobiçosos jurados do concurso? Que pode um artista fazer? Se a casa está a arder, o poeta deve chamar os bombeiros. Depois pode escrever sobre o fogo. Mais agit-prop, por favor.

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